Não vamos romantizar o empreendedorismo

O que mais ouço de pessoas que são contratadas no formato CLT é que querem empreender, porque podem trabalhar menos e ganhar mais.

É comum, estar frente a frente com algum colaborador de um cliente, em meio há um treinamento, por exemplo, e ele me dizer “quero montar um negócio, porque não quero mais trabalhar para os outros, quero ser dono das minhas vontades, vou ter mais dinheiro e menos trabalho”.

Não quero ser hipócrita, afinal, trabalho “empreendendo” já há alguns bons anos, aliás essa sempre foi a minha vontade desde a infância, tanto que sempre tive dificuldade em ficar tempo demais nas empresas, sentia que seria mais feliz e realizada trabalhando do meu jeitinho e com as minhas regras, mas dizer que trabalho menos não é verdade.

Foi depois do empreendedorismo que desenvolvi o estresse e a insônia, porque, ao montar a empresa, vieram as preocupações com as vendas, o financeiro, manter a saúde para estar apta para trabalhar, porque não teria ninguém para me cobrir. Fora os pensamentos que envolvem o planejamento futuro, já que trabalhando “por conta” não tenho 13º salário, seguro desemprego, FGTS, férias remuneradas ou qualquer um desses benefícios, mas, veja bem, não estou reclamando, são apenas escolhas.

Quando decidi finalmente empreender, lembro que o meu marido, também empreendedor, não apoiou a ideia. Na época, fiquei bastante chateada com ele, sem entender seus reais motivos, mas tudo o que ele me dizia era: “não quero que você perca o sono com o medo de não saber se amanhã ocorrerá uma venda ou não, pois as contas não param de cair”, com o tempo este alerta foi fazendo sentido para mim, e é apenas por isso que quero deixar esse alerta aqui.

Tenho, sim, um prazer enorme em acordar todos os dias e saber que posso incluir na minha agenda consultas médicas, atividades físicas, um passeio com a família, decidir a data das minhas viagens, criar meus próprios feriados, mas, para cada escolha, há uma renúncia; para manter a qualidade de vida, por vezes abro mão de um faturamento maior. Hoje o que mais faz sentido para mim e as maiores vantagens que tenho em empreender é ter um ritmo de vida mais tranquilo, é poder participar da vida ativamente e não simplesmente deixá-la passar.

Mas não é apenas sobre mim que quero falar aqui. Vejo na internet, nos jornais e em outros meios de comunicação, que muita gente romantiza a questão de se tornar empreendedor, mas há um risco nessa propaganda, pois não são todas as pessoas que têm este perfil. Como uma pessoa me disse outro dia, tem muita gente que prefere ter o vale refeição, vale combustível e o salário caindo na conta todos os meses na data certa, tem gente que não consegue lidar com o inesperado, com a montanha russa que é ser dono do próprio negócio.

Já passei por diversos negócios, vários empreendedores que alcançaram o sucesso, em sua história, que trabalharam de domingo à domingo com no mínimo 18 horas de trabalho durante anos até que o negócio torna-se consolidado, vejo pessoas que adoecem, outros que não conseguem tirar férias ou se divertir, pela dedicação integral ao negócio. Se eles estão certos ou errados, não estou aqui para julgar, mas empreender realmente toma tempo, energia, dinheiro e muita, mas muita, dedicação.

Não se sinta pressionado a ter seu próprio negócio, não se sinta cobrado por você trabalhar no formato CLT, não ache que para ter qualidade de vida é preciso pedir demissão e empreender em algo inusitado, respeite-se, entenda o seu perfil e crie o seu planejamento de vida dentro dele.

Infelizmente, atualmente muitas pessoas empreendem não por opção ou amor, mas por necessidade, o que aumenta muito os casos de negócios que não seguem adiante. Se você que está lendo este texto aqui, passa por essa questão, peça ajuda, entenda quais são seus pontos fracos e suas potencialidades, elabore um bom modelo de negócios e planejamento financeiro, pois mesmo que não tenha o perfil empreendedor hoje, você pode construí-lo pouco a pouco.

Se for entrar na jornada empreendedora, vá! Mas vá consciente.

Publicado por Elisangela Baptista

MBA em Gestão Empresarial pela FGV • Graduada em Administração • Técnica em Atendimento Varejo. Trabalha há 15 anos na área Administrativa, nos últimos 5 anos focada em consultoria estratégia em negócios, atua no desenvolvimento de pequenos e médios empreendedores. Já passou por mais de 90 empresas de Campinas e região. Gosta dos pés no chão, empreender de maneira consciente, respeitando a pessoa que existe atrás de cada negócio.

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