Se há um ser incompreendido no empreendedorismo, este é o herdeiro.

Ele é julgado pelas pessoas como um, “almofadinha”, antes de poder se pronunciar a respeito, pois todos acreditam que tudo o que ele tem, veio sem esforço e nenhum trabalho.

Por outro lado, ele carrega o peso que só um herdeiro tem, tendo que continuar o legado que veio de outras gerações, sem falhas.

Trabalhei com diversos herdeiros na consultoria, ouvi suas histórias, lamentos e suas maiores dores. Vi alguns deles inclusive, chorarem na mesa dizendo o quanto era pesado ter tanta cobrança alheia.

Como se já não precisassem lidar com as próprias inseguranças, medos e autocobrança que todos temos, eles lidam com o outro, o tempo inteiro.

João, herdou a loja do pai, na verdade, não diria que herdou, pois, pagou alguns milhões para ter o direito de se tornar diretor do próprio negócio. O negócio, havia sido do bisavô, que passou para o avô, pai e agora está em sua geração.

Ele precisou passar por terapia para conseguir amenizar o peso que carregava nos ombros. 

Constantemente, seus fundadores o visitavam e davam pitacos, com um olhar severo, mostrando tudo o que ele estava fazendo de errado, mesmo que não tenha solicitado suas opiniões.

O que ele mais precisava era ter o próprio espaço para poder criar, tentar e testar seus próprios conhecimentos e dons, pois em suas mãos, o negócio poderia ser promissor de outras maneiras.

Seu maior objetivo enquanto empreendedor, era conseguir abrir a segunda loja, para sentir que realmente era dele, sem peso, para poder errar ou acertar à vontade, mas se acertar, ele saberia ser por mérito próprio.

Pois, na terapia, ele compreendeu o espaço de cada comentário em sua vida, mas ainda assim, não conseguiu se libertar do sentimento de incapacidade, alimentado por anos, por ele mesmo e pelos outros.

Rodrigo, assim como João, trabalhou desde os doze anos com o pai, ouvia constantemente que a vida não era fácil, que estava recebendo tudo “de mão beijada” do pai e que, seria praticamente impossível, ele conseguir seguir adiante com seu negócio.

Esses comentários, mais pareciam ser uma torcida negativa para que tudo desse errado.

Quando ele assumiu o negócio do pai, recebeu junto com o nome jurídico, um peso enorme, de fazer virar, um negócio de um ramo difícil e impopular, mas estava disposto a tentar.

Por vezes, acompanhei seus familiares e até o próprio pai-fundador, visitá-lo para dizer que tudo o que ele fazia, não daria certo. Essas palavras pesavam-lhe tanto, que ele mesmo duvidava de sua capacidade como empreendedor.

Veja bem, não estou aqui julgando as atitudes dos pais, em relação aos filhos, também não os defendo, pois, cada um tenta de alguma maneira, entregar o seu melhor para sua prole.

Rafael, era outro herdeiro de negócio, ele que não tinha nenhuma experiência como empreendedor, recebeu a missão de assumir os negócios da família, e com isso, recebeu de “presente” duas lojas em ‘shoppings’ extremamente conhecidos em Campinas.

Ao pensar em Rafael, lembro de uma brincadeira que fazemos em casa, de que seria de grande sacanagem, presentear alguém, com uma cafeteira elétrica de cápsulas se não iriamos manter essas cápsulas em dia, já que para a cafeteira ter utilidade, mantê-la custaria mais caro que o presente principal, ela mesma.

No momento que estes herdeiros, recebem estes presentes de seus pais, olhando de fora, podemos pensar na grande oportunidade que eles tiveram em receber empresas consolidadas e rentáveis, que é muito mais fácil do que montar algo do zero. 

Porém, não analisamos que com estes presentes, eles recebem cobranças, além de assumirem compromissos que muitas vezes, não estão prontos para assumirem.

Será por isso, que vejo vários herdeiros que não querem mais manter os negócios de seus pais?

Passei por consultorias que os pais, entram em depressão, porque seus filhos não querem abraçar o legado que eles construíram, com muito esforço, em vários anos de suas vidas. Mas sempre vale se perguntar, se estes negócios fazem parte do propósito de vida destes herdeiros. Será que seus objetivos de vida estão completamente alinhados com os pais?

Certa vez, em um grupo de empreendedores, ouvi um empreendedor que fundou seu pequeno negócio sozinho, julgando um herdeiro, dizendo que tudo para ele era fácil demais e que ele era incapaz de compreender, as dificuldades de montar algo do nada. De lá para cá, não paro de pensar nessa discussão.

Vejo que o nosso maior erro, sempre é culpar o outro e julgar que sua grama é mais verde, e que as flores surgem porque ele tem melhores oportunidades, mas somos incapazes de irmos além, para olharmos para suas dores e lamentos enquanto pessoas.

Não cabe a nós empreendedores estes julgamentos, o que nos cabe, é nos unirmos, independentemente da origem de seus negócios e focarmos no crescimento coletivo e orgânico.

Enquanto perdemos tempo julgando uns aos outros, não haverá força o bastante, para crescermos.

O herdeiro foi o incompreendido do dia aqui nesta narrativa, mas quantos outros, não deixamos de compreender por aí?

Publicado por Elisangela Baptista

Ama viagens, lama, trilhas e outras aventuras. Consultora e mentora estratégica em negócios. Aspirante à Escritora. Educadora em Empreendedorismo. Palestrante. Atua na área desde 2004.

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