Quarta-feira, 16 de junho de 2021.

A exaustão vem tomando conta de mim, acordo sempre com um aperto no peito, angustiada, com o sentimento de que estou sempre atrasada.
Não importa se acordo às 06h, 07h, 08h… toda manhã, sinto que estou atrasada diante do mundo.
“Você viu aquele novo curso sobre gerenciamento de redes sociais, Letícia?” – minha irmã me pergunta logo cedo. E eu, que mal tive coragem de fazer meu primeiro café do dia, me encolho e começo a sentir a pressão.
“Filha, conversei com a Maria, mãe da Juliana ontem, você sabia que ela está se dando bem no negócio dela? E olha que faz apenas seis meses que ela abriu a loja, já faz quanto mesmo que você montou a sua floricultura?” – Agora me pergunto se não seria melhor ter continuado dormindo.
Voltei para o meu quarto, fiquei tentada a entrar novamente debaixo do edredom, mas olhei para o lado, na escrivaninha e te vi, meu diário parceiro de todos os desabafos.
Me sinto sempre pressionada por algo ou alguém, existe um modelo de empreendedora ideal, que não consigo atingir, na verdade, não sei se é possível fazê-lo.
Acompanho redes sociais de ditos especialistas em empreendedorismo, que soltam regras e modelos que devo seguir, se quiser me tornar referência no meu ramo.
Leio livros, assisto palestras, participo de cursos e cada um, parece ter algum modelo pronto que eu deva me adequar.
Você sabe que tenho essa floricultura há mais de 5 anos, que este sempre foi meu sonho, levar mais vida e cores para a casa das pessoas. Trabalho de domingo a domingo para mantê-la, não me lembro qual foi a última vez que consegui emendar um feriado para descansar ou ir para as montanhas fazer uma trilha.
Nas segundas e quintas tenho ainda mais trabalho, pois, foco na compra das flores. E, nestes dias, preciso acordar muito cedo, estes são os mais exaustivos dos dias.
Ao longo da semana, tento conciliar os arranjos, os atendimentos, funções administrativas e os estudos sobre tendências.
Então, quando ouço algum guru dizer: se você empreendedor, não tira férias, está errado. Se você não emenda feriados, está errado. Se não consegue praticar exercícios físicos durante a semana, está errado. Se não cresce 20% ao ano, está errado. Me pergunto: quando estarei certa?
Estou sempre com este sentimento de inadequação dentro de mim, como se não pertencesse a nenhum meio, a nenhum grupo. Talvez o grupo dos errados? Bom, isso ainda não havia cogitado.
Sou apenas uma empreendedora comum, que tinha um objetivo claro de trocar meu trabalho formal, pela floricultura.

Depois de muito planejar, ter jornada dupla e guardar todas as minhas economias, alcancei meu objetivo e há exatos cinco anos, inaugurei meu espaço, em um galpão comercial que tenho no piso térreo de casa.
Minha rotina não é nada gloriosa como vejo por aí, na verdade, ela é corrida e simples. Como ainda não posso contratar outras pessoas para me ajudar, conto com a ajuda da minha mãe e irmã, claro que, pagando pelas horas trabalhadas, no entanto, não me sinto segura para expandir e ter mais gente comigo.
Sei que faço o que é possível para manter o negócio, mas estou longe de me enquadrar no perfil empreendedor que vejo sendo vendido lá fora.
Dizem, que para ser um bom empreendedor, preciso ter capital de giro disponível, fluxo de caixa fechando no azul diariamente, produtos devidamente precificados, fotos profissionais, postagens diárias e ainda as aparições nos stories. Fora isso, preciso ter embalagem sustentável para os produtos, além de proporcionar a melhor experiência de entrega para os clientes. Tudo, focada no baixo investimento e na alta lucratividade.
Outra coisa que é vendida, é que preciso participar do maior número de cursos possíveis, assistir lives, ser atuante no networking, participar de eventos e sempre com um sorriso no rosto.
Demonstrar medo, insegurança ou dúvida? Jamais, isso é totalmente proibido.
Se algo não dá certo, tudo leva a crer que não me esforcei o suficiente.
Como se empreender fosse muito mais para o externo, para mostrar para as outras pessoas, como sou bem sucedida, do que para satisfazer meus próprios anseios.
Não estou reclamando do meu sonho, a floricultura. Pois, sei que, ela está me retornando exatamente o que tenho conseguido investir de tempo e dedicação, além da relação com o mercado que atuo.
O que realmente me chateia, são as comparações exageradas, de um negócio com o outro de um empreendedor com o outro.
Visto que em todo negócio existem pessoas, e pessoas, são todas diferentes umas das outras, é impossível seguir uma cartilha, um passo-a-passo de como seguir com o negócio. Pois, a identidade dele, será formada, não apenas pelas estratégias escolhidas, mas pela personalidade dos envolvidos.
Bom, acredito que agora minha mãe e irmã, desceram para abrir a floricultura e vou poder tomar meu café calmamente, sentindo seu aroma e o quentinho que traz no coração.
Hoje será um dia diferente, vou receber alguns amigos e clientes, para um café e flores, para comemorar esses cinco anos. Nada muito glamouroso, mas com o meu jeito de ser e servir o outro, sem regras.

Publicado por Elisangela Baptista

Ama viagens, lama, trilhas e outras aventuras. Consultora e mentora estratégica em negócios. Aspirante à Escritora. Educadora em Empreendedorismo. Palestrante. Atua na área desde 2004.

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